sexta-feira, 27 de abril de 2012

BITUCA

Estamos no ano de 2150, depois de cristo. Sim, no futuro. O planeta terra está calcinado. A pequena nave pousa onde um dia foi o campo do Morumbi. Zondefú é comandante da missão extraterrestre. Ele é verde, e tem carinha e jeitinho de ET clássico. Sim, os ufólogos tinham razão. Mas, Zondefú fica pasmo ao se deparar com tanto deserto imprestável que virou toda a superfície da terra. Zondefú trouxe a Mauser 152, uma maquineta que recupera a vida através do DNA perdido de antanho. Mas nada mais tem DNA para Zondefú trabalhar. Pega uma pá e cava. Cava. Cava, e acha, depois de 15 metros de fundura, uma bituca de cigarro. Sim, as bitucas demoram um eito para se decompor. Está escrito oliúde. Zondefú passa o seu leitor e encontra células dos beiços de algum fumante. Que baita beiço, pensa Zondefú. Deve ter sido um animal beijador. A Mauser 152 recolhe o precioso material e a vida começa a ser salva, aliás refeita. Uma geração de beiçudos, fumantes. Nunca se imaginou que o cigarro fosse trazer vida. Nunca se imaginou que a poluição das baganas perdidas fossem a arca de Noé. Zondefú cumpre seu trabalho. Olha prá traz e ve as replicas proliferando.Astros e estrelas de cinema, jogadores de futebol, médicos, cientistas, operários, portugueses donos de butecos, mineirinhos agachados de cócoras, pitando, as mulatas do Sargentelli, padres, monges, assassinos, milionários, paupérrimos, soldados,prostitutas, etc, etc, etc... O ser humano realmente é autodestrutivo. Ascende um King-size, aspira numa gostosa tragada e joga seu fumaçê. Um certo ar de caubói. Dá as costas e vai-se embora. (que horror)

quarta-feira, 25 de abril de 2012

SESTA

Não é sexta não, é sesta mesmo. Sabe aquela dormida depois do almoço? Então, sesta. Sugiro todos dormirem a sesta. Que coisa espetacular! Descobri isto agora, aos quarenta e poucos de idade. Ontem dormi e me acordei com ronco, e dormi de novo. Na Espanha todo mundo dorme depois do almoço. Aliás, até demais. Lá na península ibérica os carinhas dormem das treze às dezessete horas. E depois a cidade começa a fervilhar. E todo mundo vive a noitinha, com dispor, e a noite se vai longe. Uma cultura de sesteiros e noctívagos. Agora imagine Porto Alegre, e Porto Alegre apenas, tirando a sesta. Uma sesta espanhola dos açorianos. Imagine a BR 116, a BR 290, o shopping, o cinema e o mercado publico vazios. Ninguém no trensurb. E então, minha linda, somente você e eu acordados. Bem acordados, como bretões do fim do mundo. Correndo pela avenida Ipiranga, pelados, indo ao Guaíba tomar banho nús. Poderíamos assaltar um banco, dirigir um ônibus da Carris e fazer amor nos gramados do parque marinha do Brasil. E todos os outros, sim, todos, estariam nos braços de Morfeu. E o mundo seria nosso, pelo menos da uma às três. Por favor, meu leitor, comece a tirar a sesta. Faz bem, e recomendo. Amém.

sábado, 21 de abril de 2012

ESCUTAQUI-Ó

Mermão, vou te contar uma coisa. Rolou um concurso de crônicas, num jornal local. Um folhetim é judeu ortodoxo, e outro é do bispo da universal. Sem preconceitos. Mas parece coisa braba. Fui lá e botei uma, duas, dez crônicas. Depois li o regulamento. Não podia falar de nada que eu escrevi. Sacumé, gente diversa vai ler, gente conservadora, católicos fervorosos, crentes, judeus, islâmicos, petistas e maçonicos. Então a croniqueta tem que caber nesta catrefa toda. Difícil, mermão, difícil. Mas o assunto teria de ser algo que tocasse o amor por minha capital, Porto Alegre. Pensei bem e me dei por conta que depois de morar tantos anos nesta capital açoriana, eu fui ao mundo e morei noutros mundos. Até que o mundo me expulsou. E sem ter para onde ir, voltei à terra mãe. E a terra, ora pois, me recebeu. O mundo é um monte de terra ao redor de Porto Alegre. Sentei na praça Dom Feliciano e olhei para a Santa Casa. Lugar que eu vivi e assisti ao pobre ,e ao pobre apenas, paupérrimo. Certamente, outros tempos. Talvez porque os pobres não mais lá estão. Eu até acho que todos estavam alí ,na praça, sentados olhando a fachada histórica. Todos nós do lado de fora. Eu, com certeza, hipócrita, pois não sou pobre, aliás sou remediado. Mas estou de fora. Fora do páreo. Nem bispo, nem judeu. Não tenho clã. Mas Porto Alegre é viva e pulsante, num calor de 30 graus. Sem se importar com agrados ou falsa moralidade. Duzentos e quarenta anos e os humilhados do parque, pensando numa crônica bonitinha. Uma música do Belchior. Esperando a censura da comissão julgadora. O três por quatro da fotografia. Esperando as verdades de um povo que possam ser ditas. Palavras livres. Te amo, Porto Alegre . Pronto. Terminei. Agradei?
Encerra a conta. Apaga a luz. Fecha a porta.

sexta-feira, 20 de abril de 2012

MINI

O pequeno animal adentrou a sala correndo feito um bicho endiabrado. Era minúsculo, em termos. Um cão. Um micro-cão. Hoje é possível você comprar algo assim. Inclusive, é possível mante-lo em um apartamento de um quarto. Um small-place dog. Sim, já tem nome, pasme. Em pleno Rio Grande do Sul , que sempre se orgulhou tanto do cusco, guaipeca, vira-latas. Porém, o pequeno ser é capaz de comer um alimento semi-reciclável-semi-sintético. Pelotas alimentares. Daí que, então, caga ecologicamente correto. No que tange apartamentos. Porém, meu leitor, jamais ouse dar uma coisinha para o coisinha comer. Principalmente se fores convidado para algum churrasco ou outra orgia carnívora no dito cubículo apartamental. Se deres algo orgânico, a dona, ou o dono, terão um infarto. O bicho não pode comer nada que não esteja no manual de instruções. Senão, haverá um revertério nas tripas e o estrupício evacuatório se fará sonoro e odoroso. Sei-lá, se o termo existe. Mas escrevi esta crônica porque a dona foi no banheiro e o fofo, ou fofa, caniforme, me olhou. Olhou e disse, pô tio, vai aí, me dá uma carninha, um ossinho já dá pro gasto, vai tio! O tio deu. O bicho comeu como um manjar dos deuses. Nunca em sua vida uterina embrionária em uma cadela de isopor, o pobre animal pensou que se seria possível. A dona voltou com a bexiga vazia. Rimos e falamos das bobagens do dia-a-dia. Fui embora. O cachorrinho chorou com minha partida. Depois eu soube que, outro dia, morreu, o pobrezinho, de tripa-entupida. Duvida? Verdade, verdadeira. Compre um.
CONSTRUÇÃO




O que o futebol constrói? Fico eu pensando, tomando minha cerveja, depois de atender tanta gente sofrida num plantão médico da capital. O sol vai caindo e a cerveja gelada também. Goela à baixo. Verão infernal, meu deus! Até o guaíba esta torrando neste carnaval. Mas a pergunta fica, e fica e fica, naquele cantinho da cachola, e não quer sossegar. O que o futebol constrói? Entra campeonato, acaba campeonato, entra uma taça, sai outra taça, mudam as bandeiras, mudam os vencedores e todo ano tudo recomeça. Sempre um campeonato novo, com um nome novo, para ter a ilusão que adiante se vai. Adiante vai?! O que o futebol constrói? Oh, Fernandes, meu querido amigo garçom, me diga, o que o garçom constrói? O galego, com um sorriso ácido, é elegante na resposta. Felicidades, doutor! Bem verdade, este galego sabe bem o objetivo de todo o borracho. Ser feliz enquanto a gelada resvala na goela. Terminou, vira mijo. Depois, outra gelada, e o garçom aparece com a felicidade. Triste é pagar a conta e a pesada carga de dipirona na manhã mortal. Mas, afinal, me dou conta por mim, o que é que o doutor constrói? Entra baleado, sai esfaqueado, entra atropelado, sai acidentado, enfartado, esgualepado, e não termina. Nunca param as doenças e as desgraças da vida. E o pulso ainda pulsa, sem que eu saiba o que eu construo. Mas o futebol, ah o futebol! O ludo das quatro linhas entrou no meu rol de coisas infinitas que não chegam a lugar nenhum. Na mesa deste bar, abro o jornal. Manchete: Um buraco no estádio, sem começo, nem fim. Fizeram um buraco no estádio de futebol, que buraco é, e buraco ficou, sem definição para o que venha à ser. Será que o futebol destrói? Talvez. Acho melhor, me retirar, terminar minha gelada, curtir a breve felicidade, preparar a dipirona, e amanhã encarar outro mundéu de gente estropiada. E, percebendo que o tempo é incólume, a copa do mundo chega mais perto. Um dia à menos no calendário do Brasil. E aquele imenso buraco no estádio de futebol. Sem que vá à frente, nem atrás, nem ao meio. Maldito lugar nenhum. Maldita indefinição.
Mas afinal, me diga, o que o futebol constrói?
CARTA

Caro Érico. Dentro de um apartamento ,na avenida Independencia, estou em frente à Remington 1927 de meu bisavô. Porto Alegre arde num calor infernal de um verão tenebroso do século 21. Quem te escreve é um conterrâneo , que também deixou o berço e veio para a capital até que ao mundo fosse. E ao mundo fomos. Cada qual com seu cada qual. Foste às letras e eu fui ao norte. Visitei outras verdades, vivi nas culturas indígenas, tratei doenças estranhas, combati epidemias e perdi muita gente na minha mâo. Mas tua saga ,com certeza foi maior. Enfrentastes as sentenças e as idéias. O mundo que os homens lutam pelo direito de ser o que se é. Mas o bom filho à casa retorna, e a casa recebe. Voltamos para a beira do Guaíba com os fardos cheios da grande aventura humana. Algumas esquinas evocam teu tempo. Outras praças evocam o que sou. A vida segue num redemoinho de carros, barulhos, gritos, alegrias e dores que Porto Alegre cria feito uma fabrica de cotidianos mundanos. Nossa única semelhança termina no interesse de que tudo o que é humano me toca. Estou reiniciando minha vida aos 47 anos. Sinto o calor daqueles que me amam e me recebem neste chão. A Remington 1927 me encara com o peso do ferro e suas letras que batem no papel, pedindo que alguém narre nossas vidas, nossos sonhos, nossa história. Avise aí que esta crônica é para o Gladstone Osório Mársico, autor esquecido, que fez tanta gente rir e morreu tentando voar como um passarinho. Tentarei narrar o meu tempo na dura luta pelo pão. Até algum dia. De seu ilustre desconhecido. Eu.
BARZINHO

Adoro bar ruim. Aprendi isto com o Antonio Prata. Aquele bar horroroso que ninguém vai. Aquele bar tenebroso com uma coxinha suspeita na vitrine, ao lado do croquete indefinido. É o bar que tem frigidaire de parede inteira, com cheiro de baforadas de tabaco e carpeta, dominó, cadeira de pau, mesa com calcinho de papel, e algumas moscas amigas para entreter o vivente. Encontrei um assim ,no centro da capital. Paredes cinzas e bitucas de Óliude espalhadas no chão. Mas a grande obra é o garçom. Sempre tem algum assunto inesperado e comentários desesperançosos. Eriberto, meu amigo, e aquela gelada, sai bem no ponto? Hoje tem coxinha doutor. Beleza! Mas tudo que é bom dura pouco. O dono resolveu inovar. Comprou uma máquina de café expresso. Resolveu servir cardápio e cobrar couvert. Agora meu barzinho ruim tem musica de barzinho. Com todo o respeito, chatonildo de plantão com violão na mão, não dá. Atrapalha a filosofia. Sempre com um repertório de MPB que todos os cantores de barzinho tocam. Quando vou engrenar um pensamento, coisa rara no meu côco, entra uma melosa letra de corno sofrido. Quepariu, meu! Oh Eriberto, outra ceva! Eriberto! Oh, Eriberto! O barzinho evoluiu, eu não. Troquei de bar. Consegui outra obra existencial, na cidade baixa. Engreno minha filosofia. Começo a sustentar minha existência com a ceva gelada e o croquete azul. Quando o gosto entra nas papilas, pelo tímpano esquerdo penetra o intrometido para azedar meu angú... e começa um pagode dos infernos.